O primeiro deles, Alma no Olho (1973), de Zózimo Bulbul, discute o racismo através da transformação interna do ser, inspirado no movimento concretista.

Totalmente filmado em estúdio, contra um fundo infinito branco, câmera parada, com imagens extremamente dinamizadas pelos cortes rápidos, o corpo negro de Zózimo se desloca por séculos: desde a inocência da vida livre e feliz nos rincões africanos à mendicância nas grandes cidades imposta pela exclusão aos afrodescendentes brasileiros, passando pela infâmia dos porões dos navios negreiros.
Sem uma única palavra, usando apenas expressões faciais e corporais, sem quaisquer artifícios cenográficos, apenas com o apoio de música pontual de John Coltrane, Zózimo Bulbul cria num único ser, ele próprio ator ficcional e pessoa real, uma gama enorme de personagens condutores de uma história em que cada espectador é o construtor de sua própria narrativa. Auto-retrato de uma ancestralidade que resiste e quer ser feliz.
Ao mesmo tempo em que narra a saga da diáspora africana e seu triste destino escravo em nosso país, Alma no olho é o quadro fiel dos anos 1970 do Brasil da ditadura, em que o povo brasileiro era perseguido, aprisionado, torturado e assassinado. E onde os negros, como ainda hoje, eram o alvo preferencial dos facínoras paramilitares e milicianos dos temidos esquadrões da morte.
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